terça-feira, 23 de maio de 2017

Sobre má atribuição de competência


Uma das bizarrices mais impressionantes na cultura nacional é a hiper valorização da opinião do artista. Afinal, quando se deseja compreender ou avaliar um impasse, a quem devemos recorrer?

Devemos recorrer à opinião do Caetano Velozo? Da Letícia Sabatella? Do Lobão? Do Gregório Duvivier? Do Alexandre Frota?

Ora, deveria ser evidente que não. Por mais carismáticos e atraentes que possam ser nossos artistas preferidos, infelizmente isso não os torna autoridades nos temas em que eles não conhecem com profundidade.

Para dar um exemplo: será que Letícia Sabatella, que se opôs ao impeachment de Dilma, tem maior discernimento jurídico que Ives Gandra Martins (um dos juristas que auxiliou o processo)? Pensemos: quanto tempo de vida e carreira a senhorita Sabatella dedicou ao estudo do assunto? O quanto ela está por dentro dos meandros inerentes aquele peculiar universo hermenêutico que constitui a interpretação jurídica?

Se você não sabe, eu facilito: não há sequer um livrinho da dona Sabatella aplicando sua visão iluminadora no esclarecimento das normas jurídicas. Quem escreve livros e dá palestras sobre o assunto, quem dedicou a maior parte da vida a compreender o assunto foi Ives Gandra Martins.

Sabatella se destaca como atriz, não como profissional do Direito.

Mesmo assim, as pessoas podem preferir a opinião de quem não entende do assunto. Só não é, obviamente, algo muito inteligente de se fazer, ainda mais num caso em que outros especialistas discordam da posição de Ives Gandra.

Vale lembrar que essa discordância entre especialistas não é uma coisa rara no mundo acadêmico e científico. Há muitas questões consensuais, mas também há muitas questões escorregadias e partidarizadas nas ciências humanas. Por esse motivo, uma pessoa que aceita a opinião de um não estudioso em detrimento do argumento de um estudioso está promovendo uma atribuição distorcida de responsabilidades e competências, além de quase sempre empobrecer a discussão (que, em muitos casos, deve ser travada na linguagem técnica da área).

Com paciência e boa vontade, qualquer um consegue encontrar intelectuais e acadêmicos erguendo vozes discordantes nas ciências sociais.

Essa má atribuição de competência fica melhor visualizada quando estabelecemos um paralelo.Vejamos:

Quando as pessoas desconfiam da avaliação de um médico, elas procuram um mecânico para pedir outra avaliação? Certamente que não. Está claro que elas irão procurar outro médico.

Quando se trata da saúde, as pessoas recorrem aos especialistas e estudiosos do assunto; contudo, quando se trata de política, aceitam os pitacos de músicos e artistas. Bizarro, não?

No caso do exemplo que citei, será que os indivíduos que utilizam Letícia Sabatella como símbolo de uma sábia escolha jurídica levariam a sério uma crítica musical negativa escrita por alguém que nunca se deu ao trabalho de se aprofundar no assunto?

Duvido que a resposta seja “sim”.

Então a grande questão é: devemos dar ouvidos a quem não sabe do que está falando?

Bom, talvez devamos ouvir por gentileza, espírito democrático e liberdade de expressão, mas levar a sério… Isso já seria suicídio intelectual. Deveria ser óbvio que quem passou a vida estudando o assunto nos tem muito mais a oferecer em termos de conteúdo.
Obs: Não estou dizendo que um artista não pode ser um intelectual ou uma referência. Isaac Asimov, Arthur Koestler e Umberto Eco eram os dois, mas obviamente eram exceções. A competência intelectual da grande maioria dos artistas pátrios da atualidade não chega aos pés da competência intelectual de, por exemplo, Machado de Assis ou Lima Barreto.

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