terça-feira, 23 de maio de 2017

Considerações Sobre a Mente Profana


Aqueles que tomaram a senda do andarilho, adentrando na jornada mística, não estão isentos de se relacionar com o homem comum e, consequentemente, com sua mente ignóbil e profana. O homem massa, fútil e idiotizado, nos cerca em todos os lugares. Sua existência é hegemônica, de modo que nós, ocultistas e investigadores do absurdo, somos vistos como excêntricos, lunáticos.

Apesar de seus defeitos, esse fruto da modernidade conservou, especialmente em alguns contextos mais tradicionais, um certo respeito pela religião e pelo oculto, coisa que, em nosso país, se pode ver manifestada em simpatias, curandeirismos, macumbas e lendas mitológicas, além das tradições espirituais mais representativas, como o Catolicismo e o Espiritismo.

No entanto, cada vez mais, esse respeito tem se restringido às gerações anteriores. Se, num passado recente, o homem massa padecia por ser excessivamente supersticioso, hoje padece por ser excessivamente cético. A expansão irrestrita do secularismo, na esteira do niilismo pós-moderno, teve como efeito transferir as tendências devocionais, intrínsecas à psique humana, das esferas religiosas  para esferas pouco elevadas como a dimensão política e cultural da vida em sociedade.

O profano moderno olhará com desdém para qualquer discurso religioso que aponte uma essência ontológica para o mal. Se dissermos que Satã é real e pode ser visto, ouvido e sentido, o profano, com sua arrogância estúpida, provavelmente debochará. No entanto, esse mesmo profano, se adotou a religião secular da esquerda política, pensará quase o mesmo que nós sobre o Diabo, mas o chamará de “capitalismo” ou de “egoísmo”. A diferença crucial é que nós sabemos que nosso sentimento é religioso, enquanto o materialista negará -com todo o fervor- a própria natureza religiosa e dogmática de suas crenças.

Há vasta literatura sobre a natureza religiosa (muitas vezes mascarada) dos movimentos políticos modernos, especialmente dos sectarismos de esquerda. Mas quão frustrante seria  para o  materialista reconhecer que sente e se orienta exatamente pelo mesmo ímpeto devocional que move a todos os homens! O materialista marxista dirá sempre que descobriu o nexo da História (ele se vê como um gnóstico, um iluminado) e se dissermos que ele se engana, se dissermos que suas crenças não são científicas, ele nos dirá que discursamos em nome do capitalismo, que é apenas uma linguagem secular para dizer que estamos “endemoninhados”, possuídos ou lutando em prol das forças maléficas que governam este mundo. O marxismo não passa de um cristianismo secularizado. Mas foi infeliz e acabou por conservar apenas os piores aspectos dessa religião.

Assim, o profano, pensando religiosamente, excluirá toda e qualquer explicação religiosa. E é nesse mesmo ato que assassina a possibilidade de que, algum dia, venha a alcançar um entendimento profundo do mundo.

O profano é sempre arrogante, mas não é arrogante por saber mais; é arrogante por desprezar o que não sabe. Ele vê o simbolismo ritualístico e iniciático com desprezo, e  não saberia diferenciar um pentagrama de um hexagrama. Ele é cego para os símbolos, e por isso é sempre refém dos mesmos. Por não poder enxergá-la, ele é sempre dominado pela simbologia. Os que manipulam os símbolos, esses tem poder sobre os profanos.

É por isso que, na análise da realidade secular, jamais o simbolismo é considerado. No entanto, o profano é, além de arrogante, vaidoso. Ele  pode até aceitar que dois matemáticos ou criptologistas digam coisas significativas, se embasando em símbolos, sem que ele  compreenda, contudo, jamais aceitará o mesmo de dois místicos. A consequência de tal negação é que, sendo incapaz de levar a sério o que é sério, o homem profano é, por todos os lados, dominado por elites maçônicas e iniciáticas, que se divertem com sua ignorância, exibindo seus símbolos e se comunicando abertamente, certos de que o profano jamais lhes entenderá.

E não entenderá mesmo.

Desse modo, o homem profano é o escravo perfeito, pois se nega a olhar para a arma de seus algozes – o simbolismo-, preferindo zombar dela. Está perdido e jamais pode se encontrar, pois é uma espécie de doente cético sobre os efeitos da própria doença. Não pode encontrar a cura, pois não é capaz nem mesmo de perceber que padece.

2 comentários:

  1. Muito bom seu texto Jonatas. Mas tenho que discordar de algumas das sua premissas. Primeiramente, o profano muitas vezes não é arrogante por desprezar o que não sabe, mas justamente por saber. Ora, ao ver o simbolismo por detrás de um pentagrama ou de um hexagrama, esse profano pode muito bem perceber o quão manipuladora é a religião, ocultismo, superstição, etc, na história da humanidade. A partir do momento em que se acredita em um diabo com forma, não é dificil perceber que acreditar em dragões e medusas é a mesma coisa. Dito isso, o profano percebe como a credulidade pode nos levar a níveis absurdos com relação as figuras da nossa mente.

    O profano de massa, esse é o que eu penso que vc se refere, não é profano. Ele nem sabe disso. Aí claro, vem as teorias de conspiração. Talvez estejamos em um momento histórico-social em que eliminar crenças seja a solução para evitar conflitos. Nesse ponto chego a concordar com Marx. O profano das massas é apenas uma pobre mente em meio a tantas outras que foi criada para debochar, mas não por escolha própria, mas por que isso é a única coisa que ele conhece.

    Bom Jonatas, com certeza não fui clara nas minhas palavras. Não escrevo como vc ( li mais alguns posts seus) mas cá estou eu. Aguardo novos posts. Parabéns pelo blog.

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    1. Olá, cara anônima! Fico feliz que tenha gostado do texto e que também tenha discordado dele, afinal, considero extremamente saudável exercer nossas habilidades de análise crítica.

      Se entendi bem, você pensa que o homem massa, secularizado, tende a ridicularizar o simbolismo porque intui o modo como os símbolos podem ser usados pra manipular a mente. Foi isso mesmo que você quis dizer?

      Se foi, é uma ideia interessante. Acha mesmo que as pessoas tem alguma intuição pra perceber que estão sendo manipuladas ou que símbolos podem manipulá-las?

      Não se subestime. você foi clara nas palavras. Pode ter tido, talvez, alguma dificuldade de traduzir perfeitamente o que pensou, mas isso é normal. Todos temos.

      De resto, conversar com anônimo, mesmo um anon gentil, não dá, né?!rs. Cria um perfil, mesmo que seja fake. Gosta de debater, argumentar, compartilhar ideias, trocar fontes e referencias? Mande um e-mail pra morpheusdosoneiros@gmail.com e me apresente o seu mundo mental. Estou curioso pra saber que tipo de pessoa se interessou por temas que também me interessam.

      No mais, Abraços. Obrigado pelo comentário, me alegrou o dia ;)

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